Artigo de Pedro Moreira Dias e Nelson Araújo Maciel, autores n’A Cientista Agrícola

O marmeleiro Cydonia oblonga Miller é uma planta arbustiva com origem no sudoeste e centro da Ásia, sendo cultivada desde a antiguidade, 4000 a.C. na zona da Babilónia (Voz do Campo, 2018). Ainda é possível encontrar a variedade selvagem na Ilha de Creta (Quinta dos Comoros, 2018). Foi difundido pela zona mediterrânea, pelos romanos.

A nível botânico o marmeleiro é uma pomóidea, C3, pertencente à família das rosáceas. Segundo Serralves (2018), é caracterizada por ter folhas simples, ovadas, coriáceas, tormentosas na página inferior, percoladas, com cor verde-escuro na parte superior e acinzentadas na parte inferior.

As flores caracterizam-se pela cor branca e por possuírem 5 pétalas, 5 sépalas, cálice e corola, com 20 estames (Voz do Campo, 2018), sendo estas hermafroditas de polinização entomófila, sendo o tipo de inflorescência solitário. Pode atingir um porte a tender para a verticalidade que varia entre 2 a 6 m de altura, copa arredondada com 2-4 m de diâmetro e ritidoma liso e acinzentado (Mitra nature, 2018).

Os principais consumidores de marmelos a nível mundial são o Médio Oriente e a antiga URSS (InfoAgro 2018). As estatísticas de 2011 apontam a Turquia e a China como os maiores produtores mundiais, com cerca de 46% da produção (Voz do Campo, 2018). Ao longo dos últimos 20 anos quer a área quer a produção têm vindo a aumentar tanto a nível mundial como a nível nacional, sendo que em Portugal, em 2016, estabilizou nos 796 ha, e a produção nas 6046 toneladas, com uma ligeira diminuição em relação a 2015.

Segundo Kukokami (1968) citado por Dall’Orto (1987), 100 gramas de marmelo fornecem 0,3 a 0,6g de proteínas, 0,1 a 0,3g de gordura e 10,3 a 16,3g de hidratos de carbono, correspondendo aproximadamente a 40 a 60 calorias. Quando consumido ao natural é boa fonte de vitamina C, que varia de 5 a 12 mg. Por outro lado, o facto de possuírem uma quantidade razoável de taninos e pectinas faz com que o seu consumo seja recomendado para auxiliar o bom funcionamento do aparelho digestivo.

Aspetos de frutificação

Segundo Serralves (2018), a floração inicia-se em março e finaliza em maio, dando origem a um fruto carnudo, pomo, que atinge a maturação em setembro. A produção ocorre principalmente nas extremidades sobretudo em verdascas ou em madeira do ano anterior (InfoAgro, 2018).

De acordo com Dall’Orto (1982), o marmeleiro é uma espécie suscetível à alternância, sendo esta dependente do estado sanitário do pomar, e tem tendência a iniciar a produção quatro a cinco anos após a instalação.

O processo de multiplicação pode feito por via seminal, importante para obtenção de novas variedades, e por estacaria realizada a partir de ramos destacados de 25-30 cm em madeira do ano.

O marmeleiro apresenta alguns porta-enxertos para ultrapassar certos problemas, por exemplo, para solos pesados pode-se usar marmeleiro EMA, em solos calcários o BA29, com resistência a nemátodos o EMA e EMC, para reduzir o porte em caso de terrenos férteis o Adams e EMC, no caso dos pouco férteis o BA29 (Infoagro, 2018). O marmeleiro pode ser usado como porta enxerto ananicante de pereiras e nespereiras.

Flor de marmeleiro.

Práticas culturais e pragas e doenças 

No que diz respeito à fertilização dos pomares de marmeleiros não existem ensaios que possibilitem a realização de recomendações, isto para Portugal (Veloso, 2016). Porém, segundo a InfoAgro (2018), podem ser utilizados fertilizantes orgânicos, fosfatados e potássicos; contudo, as doses a aplicar devem reduzidas e equilibradas.

Em termos de rega, no pomar do Centro Hortofrutícola da ESAB utiliza-se o sistema gota-a-gota com uma dotação anual de 1800 a 2250 m3/ha e a aplicação de fertilizantes é realizada por fertirrega (Voz do Campo, 2018).

Para o controlo das infestantes, a prática mais comum é a aplicação de herbicidas de contacto na linha, enquanto que na entrelinha se recorre a destroçadores (Voz do Campo, 2018).

A poda de frutificação normalmente é realizada no fim de dezembro a meio de janeiro essencialmente para “rebaixar a árvore” e retirar ramos que possam causar sombreamento e tem o objetivo de fomentar o desenvolvimento dos ramos do ano que serão os responsáveis por grande parte da produção (Voz do Campo, 2018).

As principais pragas do marmeleiro são os afídeos (Aphis pomi De Geer), o bichado-da-fruta (Cydia pomonella Linnaeus) e a mosca do mediterrâneo (Ceratitis capitata Wied) sendo esta última a que mais prejuízos tem causado principalmente na cultivar Portugal (Voz do Campo, 2018).

Nas doenças, a que causa maior preocupação é a entomosporiose provocada por um fungo (Entomosporium maculatum Lév.) e cujos sintomas são anéis necróticos nas folhas, frutos e ramos.

Colheita e utilizações 

A colheita do marmelo é realizada manualmente quando os frutos estão maduros. A sua maturação é reconhecida pelo odor que os frutos emitem e pela queda dos pelos que o envolvem. É difícil obter rendimentos elevados devido ao facto de ser pouco produtiva(InfoAgro, 2018).
Em Portugal, a cultivar Gigante de Vranja é colhida a partir da segunda quinzena de setembro e a Portugal a partir de início de outubro com produtividades médias de 18,5t/ha e 12 t/ha, respetivamente (Voz do campo, 2018).

Não é comum o seu consumo em fresco devido à sua dureza, sabor áspero, acidez e adstringência (Voz do Campo, 2018) e a sua polpa é facilmente oxidada resultando no seu escurecimento (Serralves, 2018) sendo que as suas principais utilizações são para a
produção de compotas, geleias e marmelada.

É de salientar a sua apetência para produtos medicinais, prática comum nos povos árabes (Voz do Campo, 2018). Pode ser usada como ornamental e a sua madeira pode ser usada na marcenaria e carpintaria (InfoAgro, 2018).

Evolução da área de produção do marmeleiro em Portugal. Fonte: FAOSTAT

Uma planta ideal para Portugal

O marmeleiro encontra em Portugal as condições ideais para a sua instalação. Acompanha por excelência as zonas vitícolas, muito comuns no nosso território, adaptando-se aos solos tipicamente ácidos e franco-argilosos. Além disso, temreduzida exigência em horas de frio, podendo ser cultivado em regiões como o Alentejo.

Porém, existe falta de informação e investigação sobre esta cultura em Portugal. Há ainda uma grande exigência a nível de equipamentos e instalações para o seu processamento visto que o marmelo não é habitualmente consumido em fresco.

Salienta-se ainda a elevada diversidade de produtos obtidos nesta cultura, nomeadamente a dupla aptidão para produção de fruto e madeira. Isto possibilita a sua utilização para produtos conservados, como marmeladas e geleias, perfumes e as árvores em queda de produção para carpintaria e marcenaria. Esta é uma forma de otimizar os lucros obtidos, além de que contribui para uma agricultura mais sustentável.

Artigo de Pedro Moreira Dias e Nelson Araújo Maciel, autores n’A Cientista Agrícola

Para receber artigos e notícias sobre agricultura no seu email, subscreva a nossa newsletter.